Vamos analisar o futuro próximo do Oriente Médio. A perspetiva para os próximos cinco a dez anos é complexa e marcada pelos interesses estratégicos das grandes potências na região. Esses centram-se essencialmente no acesso a recursos e nas rotas de transporte sobretudo marítimas. O Oriente Médio continua a ser crucial como grande produtor de petróleo embora tenhamos assistido a uma mudança significativa na distribuição da produção. Os Estados Unidos que na década de setenta dependiam fortemente do petróleo do Oriente Médio são hoje o maior produtor mundial de petróleo e um grande exportador.
O seu papel na região está profundamente ligado a questões geopolíticas. A sua base militar no Qatar a presença de frotas no Golfo Pérsico e no Mediterrâneo e as alianças com os principais países árabes permitem projetar poder regional. Desde a Guerra Fria esta área tem sido palco de uma disputa entre a presença americana e a influência da União Soviética e hoje da Rússia. Os russos que perderam grande parte dos seus aliados após o fim da Guerra Fria voltaram a investir na Síria para apoiar o governo de Assad durante a guerra civil mantendo forças no território e importantes bases incluindo uma base marítima no Mediterrâneo e uma base aérea estratégica. A presença russa enfrenta agora desafios devido à ascensão de fundamentalistas islâmicos no país cuja postura é hostil aos interesses russos motivada pela repressão ao Islã na própria Rússia.
A União Europeia assume um papel mais económico do que militar na região com limitada capacidade de projeção de poder. A França mantém alguma intervenção no Líbano mas sem conseguir controlar totalmente a crise ao longo das últimas décadas. A atenção europeia foca-se mais em África do que no Oriente Médio. No entanto existe convergência entre todos os atores internacionais em relação à preocupação com o desenvolvimento nuclear do Irão.
O ano de 2020 marcou uma mudança significativa com os chamados Acordos de Abraão. O governo de Trump propôs um acordo de paz que muitos consideraram ilusório incluindo anexações da Cisjordânia que dificilmente seriam aceites pelos principais atores da região. Apesar disso o resultado concreto foi a negociação de países árabes moderados sobretudo no Golfo que decidiram normalizar relações com Israel. Em troca os Estados Unidos e Israel suspenderam temporariamente a ideia de anexar territórios da Cisjordânia. O impacto sobre os palestinos foi profundo. A ilusão de que os países árabes não fariam a paz com Israel enquanto não existisse uma solução para a sua soberania começou a ruir. Este fenómeno teve raízes já na década de setenta quando o Egito decidiu estabelecer a paz com Israel abrindo mão de continuar o estado de guerra.
Posteriormente com os Acordos de Oslo e a paz entre a Jordânia e Israel ficou claro que para Amã era essencial manter relações normalizadas com Israel garantindo o fornecimento de água e gás e preservando a estabilidade social e económica. O passo de 2020 com os Emirados Árabes Unidos o Bahrein o Sudão e Marrocos a normalizar relações com Israel abriu a porta a uma possível normalização futura com a Arábia Saudita expandindo este processo à maior parte do mundo muçulmano. Os palestinos ficaram assim órfãos de suporte internacional e esta transformação pode ter sido a consequência mais relevante dos Acordos de Abraão com impactos que podem culminar em eventos significativos como o sucedido no sete de outubro.