Existem muitas teorias sobre o declínio das sociedades, mas três delas são particularmente interessantes. A primeira é a ideia da financeirização, proposta pelo economista francês Thomas Piketty, autor do livro Capital no Século XXI, um livro acessível e esclarecedor que vale a pena ler. Piketty argumenta que o capitalismo passa por diferentes fases. No início temos o capitalismo do consumidor, onde a sociedade se concentra em criar bens que os consumidores desejam comprar, uma era de rápida geração de riqueza. Depois, entra-se no capitalismo financeiro, uma fase de investimento em que, em vez de construir fábricas, o dinheiro é colocado no mercado de ações. O objetivo passa a ser gerar o máximo de dinheiro possível, não necessariamente riqueza real. Por fim, chegamos ao capitalismo monopolista, em que poucas empresas controlam praticamente tudo, porque ser monopólio é mais lucrativo do que competir.
Esta transição tem implicações profundas. Quando o foco está apenas em especular, as pessoas deixam de se concentrar em trabalhar arduamente para criar riqueza real. Por exemplo, um empreendedor pode construir uma fábrica, criar empregos e tecnologia, e produzir bens que as pessoas compram, gerando riqueza. Mas, depois, pode colocar o lucro no mercado de ações, onde cresce mais rápido. Se todos fizerem isto, a economia real não cresce ao mesmo ritmo que a financeira, surgindo desemprego, endividamento e uma falta de produção real. Piketty mostra que na fase tardia do capitalismo a economia real cresce cerca de 2% enquanto a financeira cresce 5%. Assim, quem tem dinheiro prefere investir no mercado de ações, que rende mais, e a economia real sofre, criando problemas sociais profundos.
A segunda teoria é a da sobreprodução da elite, proposta pelo historiador Peter Turchin. Ele estudou durante décadas o surgimento e queda de sociedades, analisando o Império Romano, a Revolução Francesa e muitos outros exemplos. Segundo Turchin, as sociedades entram em declínio porque há demasiadas pessoas poderosas a competir por posições limitadas de poder. Um exemplo que ilustra esta ideia é o experimento de James B. Calhoun, conhecido como Utopia dos Ratos. Calhoun colocou ratos num ambiente fechado com abundância de comida, água e abrigo. Começaram com poucos ratos, mas rapidamente a população cresceu para centenas. No início, estavam felizes, mas eventualmente começaram a matar-se entre si. O problema não era a falta de recursos, mas a competição por status. Na natureza, ratos competem por parceiros sexuais e, se perderem, procuram outro lugar. No experimento de Calhoun, não havia para onde fugir. O resultado foi violência contínua.
O mesmo acontece nas sociedades humanas. As elites e os filhos das elites competem entre si por posições de poder. Quando existem demasiados indivíduos qualificados a lutar por poucos lugares, surgem conflitos inevitáveis, levando a guerras, revoluções ou colapsos sociais. Hoje, por exemplo, há muitos graduados a aspirar a posições de grande poder, mas nem todos conseguem, e isso gera tensão e instabilidade.
A terceira teoria é o ciclo de vida civilizacional, proposta pelo filósofo alemão Oswald Spengler. Ele argumenta que sociedades e civilizações têm ciclos de vida semelhantes aos dos seres humanos: nascem, crescem, amadurecem e morrem. As civilizações passam de aldeias a vilas, depois cidades e eventualmente mega-cidades. No início, a vida numa aldeia é simples, há trabalho coletivo, solidariedade, muitas crianças porque são mão-de-obra e todos contribuem para o bem comum. À medida que a civilização cresce, surge a abstração: as pessoas tornam-se removidas da realidade. Não sabem de onde vem a comida que comem, ou como os bens que usam são produzidos. A vida torna-se mais individualista, o que mantém as pessoas unidas deixa de ser a tradição ou a relação com os outros e passa a ser o dinheiro, que é a maior abstração.
Nas mega-cidades, as pessoas preocupam-se apenas com o seu próprio prazer, dependem de trabalhadores imigrantes e deixam de se preocupar com os outros. O desejo de ter filhos diminui e a civilização entra na sua fase final. Washington DC, Nova Iorque, Paris e Londres são exemplos de mega-cidades onde esta tendência se observa. Segundo Spengler, este ciclo é inevitável: não há nada que possamos fazer para o impedir.
Estas três teorias, a financeirização de Piketty, a sobreprodução da elite de Turchin e o ciclo de vida civilizacional de Spengler ajudam a compreender os diferentes mecanismos que levam sociedades ao declínio. Elas mostram que fatores económicos, sociais e culturais estão interligados e que as mudanças nas prioridades, no poder e nas estruturas sociais podem ter efeitos profundos e duradouros no destino das civilizações.